Saiba por que a Itália, epicentro da Covid-19 na Europa, está em melhor situação que outros países


ROMA — Quando o surto do novo coronavírus começou na Europa, a Itália foi o epicentro da pandemia, um lugar para ser evitado a todo custo, uma espécie de forma reduzida dos Estados Unidos hoje e uma grande representação do contágio descontrolado no continente europeu.

Agora, no continente, a Espanha registrou surtos em algumas regiões. O Reino Unido adiou a nova fase de desconfinamento e impôs mais restrições. E até a Alemanha, elogiada pela sua atuação contra a pandemia, afirmou que o comportamento negligente está provocando um aumento de casos.

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Mas e a Itália? Os hospitais do país basicamente não têm mais pacientes com Covid-19. As mortes diárias, especialmente na Lombardia, a região no Norte que mais sofreu o impacto da pandemia, estão por volta de zero. O número de novos casos diários caiu para “um dos mais baixos da Europa e do mundo”, disse Giovanni Rezza, diretor do departamento de doenças infecciosas do Instituto Nacional de Saúde.

— Temos sido muito prudentes — avaliou Rezza.

Após um início complicado, a Itália consolidou, ou pelo menos manteve, as recompensas de uma rigorosa quarentena por meio de uma mistura de vigilância com a dolorosa experiência médica adquirida.

O governo tem sido orientado por comitês científicos e técnicos. Médicos, hospitais e autoridades de saúde locais coletam diariamente mais de 20 indicadores sobre o vírus e os enviam para as autoridades regionais, que os encaminham ao Instituto Nacional de Saúde.

O resultado disso é um raio-x semanal da situação da saúde no país, no qual se baseiam as decisões políticas. O cenário atual está muito longe dos momentos de pânico e do colapso que atingiu a Itália em março.

Italianos voltaram a frequentar as prais apos o rigoroso lockdown Foto: Alberto Pizzoli / AFP
Italianos voltaram a frequentar as prais apos o rigoroso lockdown Foto: Alberto Pizzoli / AFP

Nesta semana, o Parlamento prorrogou o estado de emergência do país até 15 de outubro, depois que o primeiro-ministro Giuseppe Conte argumentou que o país não podia baixar a guarda “porque o vírus ainda está circulando”.

Esses poderes permitem ao governo manter as restrições em vigor e responder rapidamente — inclusive com quarentenas — a qualquer novo problema. O governo já impôs restrições de viagem a mais de uma dúzia de países, já que a importação do vírus de outros lugares é hoje o maior medo.

— Estão surgindo novos casos na França, na Espanha e nos Bálcãs, o que significa que o vírus não sumiu totalmente — disse Ranieri Guerra, diretor-geral-assistente de iniciativas estratégicas da Organização Mundial de Saúde e médico italiano — O vírus pode voltar a qualquer momento.

Não há dúvida de que a quarentena teve um custo para a economia. Durante três meses, empresas e restaurantes foram fechados, o movimento foi altamente restrito — mesmo entre regiões, cidades e até ruas — e o turismo parou. Espera-se que a Itália perca cerca de 10% de seu PIB este ano.

Mas, a certa altura, quando o vírus ameaçou se espalhar incontrolavelmente, as autoridades italianas decidiram pôr vidas à frente da economia. “A saúde do povo italiano vem e sempre virá em primeiro lugar”, disse Conte à época.

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A estratégia de adotar uma quaretena rigoroso trouxe críticas de que a excessiva cautela do governo estava paralisando a economia. Mas pode revelar-se mais vantajosa do que tentar retomar as atividades econômicas enquanto o vírus ainda permanece forte, como está acontecendo em países como Estados Unidos, México e Brasil.

Isso não significa que os pedidos para manter os cuidados, como em outras partes do mundo, tenham sido imunes a piadas, resistência e irritação. Muitas vezes, as máscaras são abaixadas ou simplesmente não estão sendo usadas em trens ou ônibus, onde são obrigatórias. Os jovens estão saindo e fazendo o que jovens fazem — correndo risco de espalhar o vírus para a população mais suscetível. Os adultos começaram a se reunir na praia e nos churrascos de aniversário e ainda não há um plano claro de retorno às aulas, o que ocorrerá em setembro.

Há também um movimento antimáscaras motivado politicamente e liderado pelo ultranacionalista Matteo Salvini, que em 27 de julho declarou que se cumprimentar com os cotovelos, ao invés de apertos de mãos e abraços, era “o fim da espécie humana”.

Em julho, ele acusou o governo italiano de “importar” imigrantes infectados para criar novos surtos e prorrogar o estado de emergência. Outra personalidade do país, o tenor Andrea Bocelli disse não acreditar que a pandemia fosse tão séria porque “eu conheço muitas pessoas e não conheço ninguém que foi parar em uma UTI”. Dois dias depois, ele pediu desculpas por ter menosprezado a pandemia.

E o isolamento inicial da Itália por parte de seus vizinhos europeus no começo do surto, quando máscaras e ventiladores mal chegavam do outro lado das fronteiras, pode, na verdade, ter ajudado, segundo Guerra, o especialista da OMS.

— Inicialmente houve competição, não houve colaboração — afirmou. — E todo mundo reconheceu que a Itália foi deixada sozinha naquele momento.

— Como consequência,  que eles tiveram que fazer naquele momento, porque estavam sozinhos, acabou sendo mais eficaz do que as ações de outros países — disse Guerra.

Cenas de caixões de vítimas da Covid-19 na Itália não circulam mais após os efeitos positivos do rigoroso lockdown no país Foto: Fabio Bucciarelli / New York Times
Cenas de caixões de vítimas da Covid-19 na Itália não circulam mais após os efeitos positivos do rigoroso lockdown no país Foto: Fabio Bucciarelli / New York Times

Primeiro, a Itália pôs cidades em quarentena, depois a região da Lombardia, no Norte e, após isso, toda a península e suas ilhas, apesar do vírus basicamente não ter circulado em grande parte do Centro e do Sul. Isso não apenas impediu os trabalhadores do Norte de voltarem para casa no Sul, levando o vírus para uma área muito mais vulnerável, mas também promoveu e forçou uma ação nacional conjunta.

Durante a quarentena, os movimentos eram estritamente limitados entre regiões e cidades e até quarteirões. Os moradores tinham que preencher formulários de “autocertificação” para provar que precisavam sair para trabalhar, por motivos de saúde ou para “outras necessidades”. Máscaras e regras de distanciamento social foram aplicadas por algumas autoridades regionais com altas multas para os desobedientes.

À medida que as cenas de sofrimento humano se espalharam — como imagens de caixões sendo carregados por caminhões militares —, a taxa de transmissão do vírus passou a diminuir rapidamente e a curva se achatou. Um movimento contrário se comparado a outros países europeus que fugiam da quarentena, como a Suécia.

O confinamento rigoroso acabou tendo um efeito secundário ao diminuir o volume de vírus circulando no país e, assim, reduzir a probabilidade de se entrar em contato com alguém infectado.

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Alguns médicos italianos contam que acreditam que o vírus agora está se comportando de maneira diferente na Itália. Matteo Bassetti, médico especializado em doenças infecciosas na cidade de Gênova, no Noroeste do país, acha que o vírus se enfraqueceu — uma visão não comprovada, o que ele reconhece, que vai ao encontro do pensamento de Salvini e de outros políticos que são contrários à prorrogação do estado de emergência.

A maioria dos especialistas em saúde diz que o vírus ainda está circulando e, como o governo considera a possibilidade de um novo decreto para reabrir boates, festivais e viagens de cruzeiro, muitos deles imploraram ao país para não baixar a guarda.

— Mesmo que a situação seja melhor do que em outros países, devemos continuar sendo muito prudentes — afirmou Rezza, do Instituto Nacional de Saúde, acrescentando que acha que a pergunta sobre o que a Itália fez corretamente deveria ser feita “no fim da epidemia”.

— Não podemos excluir a possibilidade de termos um surto na Itália nos próximos dias — disse. — Talvez seja apenas uma questão de tempo.



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